A situação “brutal e arrasadora” que ainda existe nas famílias portuguesas.

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SOCIEDADE

 

E não, não é só de violência doméstica que se trata

06.03.2019

Há mulheres com companheiro que têm o mesmo ou menos tempo livre do que aquelas que não têm ninguém que as ajude em casa. Por isso, quem sofre quando a mulher não tem qualquer ajuda nas tarefas domésticas? E quando é discriminada no emprego ou quando é alvo de violência doméstica? Não, não é só ela, é toda a sociedade – mais divórcios, mais absentismo laboral por culpa do cansaço extremo, menos contribuições para a segurança social. Laura Sagnier, coordenadora do maior estudo algum dia feito sobre a mulher portuguesa, “As mulheres em Portugal, hoje”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, diz ao Expresso que a situação é “brutal e arrasadora”. Esta quinta-feira é dia de luto nacional pelas vítimas da violência doméstica e sexta é dia da mulher

Por Ana França

Já mostrou este estudo a alguns homens? Amigos seus, homens em posições de poder
Sim, já, em Espanha. A um dos homens a quem falei deste estudo, mesmo antes de ele o ler, a primeira pergunta que fez foi: ‘Então, qual é a percentagem de bananas que andam a passar as camisas em vez das mulheres?’. Mas um outro teve uma reação mais positiva: agradeceu-me porque a partir daqueles resultados era capaz de valorizar o trabalho que sua mulher fazia em casa como trabalho de facto.

Referiam-se ambos à questão do trabalho pago e não pago, certo? O trabalho que a mulher realiza em casa, já depois de sair do seu emprego remunerado, chega a ocupar-lhe mais quase seis horas do dia.
Esta é uma questão muito importante. O valor que mulheres e homens atribuem a uma hora de trabalho no emprego tem de ser igual ao valor que homens e mulheres dão a essa mesma hora no que toca ao trabalho doméstico, porque aquele tempo é tempo que as mulheres deixam de ter para elas mesmas, não interessa se é ou não remunerado – é delas. E perde-se.

Se as mulheres fossem pagas por serem as explicadoras dos seus filhos ou as cozinheiras lá de casa, isso acrescentaria uma soma bastante avultada aos seus ordenados mensais. Há uma forma de ‘compensar’ a mulher por esta contribuição para a ‘economia paralela’ das tarefas domésticas?

O problema não é só não receberem. Isto acaba por contaminar imenso as relações, deixa as mulheres infelizes com a relação. E depois daí é uma bola neve. Por exemplo, os psicólogos e nós todos empiricamente sabemos, e salvo raras exceções, que o ideal para a educação das crianças é terem os pais juntos. Isto tem menos probabilidade de acontecer se as mulheres se chatearem com os maridos pelo cansaço que a relação impõe.

E ainda por cima em Portugal há muitas mulheres com emprego que não dependem ou não dependem totalmente do homem.

Exatamente. Em Portugal a percentagem de mulheres com emprego pago é de 71%, em Espanha é de apenas 59%. Muitas mulheres portuguesas não têm de ficar numa relação que consideram tão desigual. Quais as razões que teriam para ficar com alguém que apenas lhe dá trabalho em casa e, um outro problema, as fazem sentir-se um pouco idiotas por aceitar tudo?

Laura Sagnier, a espanhola que coordenou o estudo “As mulheres em Portugal, hoje”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, também foi obrigada a parar devido à exaustão – um padrão que voltou a encontrar nas mulheres portuguesas

Argumenta no estudo que a quantidade de trabalho que recai exclusivamente sobre as mulheres afeta toda a sociedade. Pode explicar melhor?

Sim, afeta toda a gente e a economia de um país – todos os antidepressivos, as baixas laborais, os divórcios… É uma pescadinha de rabo na boca. A mulher pensa que ao fazer tudo está a fazer o que é correto para a família, para os filhos, mas ela não pensa – e muito menos a sociedade pensa por ela – que se ela está no limite então tudo à sua volta vai cair: da educação dos filhos à sua independência económica, no momento em que deixar de conseguir trabalhar por depressão ou cansaço. Isto não é uma guerra de sexos. É algo que temos de remediar como sociedade.

Isso não é fácil de implementar entre os casais mais velhos que sempre fizeram as coisas de uma certa forma.
É superdifícil, mas nos jovens temos de fazer um investimento sério. Há uma localidade no norte de Espanha, Vitoria-Gateiz, que dá aos casais que se casam pelo civil um documento no qual se listam as responsabilidades da vida em casal, se aconselha a divisão de tarefas e se alertam mulheres e homens para as consequências de uma vida desequilibrada no que ao trabalho doméstico e ao cuidado com os filhos diz respeito. Essa folha tem de ser assinada por ambos antes de poderem casar.

Quando começou a compilar os dados e lhe foram surgindo os primeiros resultados, qual foi a primeira surpresa?
A quantidade de mulheres ativas no mercado de trabalho. Em Portugal são 71% enquanto em Espanha são 59%. Já me tinham dito, mas ficou claro com os números. As mulheres que trabalham fora de casa estão tão cansadas como as espanholas, mas como em Portugal há mais mulheres com dois empregos, o pago e o não pago, então há mais mulheres cansadas em Portugal.

E depois também há a diferença do ordenado. Mais de metade das portuguesas não ultrapassa os 900 euros mensais, sendo que há muitas que recebem cerca de 700.

Sim, chocou-me muito. Possivelmente uma análise ao salário dos homens seria igual neste ponto: os salários são geralmente menores do que em Espanha. Há um outro dado que me impressionou muito: em Portugal 74% das mulheres declaram-se católicas, contra 55% das espanholas.

E essa diferença muda a forma de ver a família, as obrigações com a casa, a maternidade
Sim, na minha opinião há uma ligação direta entre a maternidade e o facto de tantas mulheres portuguesas se sentirem católicas. É apenas a minha interpretação. Em Espanha há 9% de mães arrependidas de terem tido filhos e em Portugal não chega a 5%, é metade. A questão da maternidade está muito mais implícita na mentalidade das portuguesas.

Esta quinta-feira assinala-se um dia de luto pelas vítimas de violência doméstica em Portugal. Estas iniciativas são uma forma de alerta para a sociedade ou só valem a pena se acompanhadas de um esforço legislativo?
A situação que se vive atualmente é tão brutal e arrasadora que tudo o que faça a sociedade olhar para este problema ajuda a dimensionar estas questões, a torná-las mais visíveis. Isto tudo já acontecia no passado mas agora fala-se muito mais e os homens também começam a tomar mais consciência. Temos de colocar dias no calendário para que as pessoas, os governos e os meios de comunicação social mostrem que a violência contra as mulheres é algo que uma sociedade que se quer instruída não pode permitir.

O dia 8 de março, Dia da Mulher, é já esta sexta-feira. É mais um dia para reivindicar ou é um dia para celebrar a mulher?
É um dia de protesto, não é um dia mais ‘light’. Temos de aproveitar o facto de agora se falar com grande amplitude de questões que sempre foram um problema e que estiveram durante décadas associadas às franjas mais feministas e que por isso eram descuradas e tratadas como preocupações secundárias. Para mim, o importante é que agora pessoas que não costumavam falar da igualdade de oportunidades, que não são de todo parte de qualquer movimento feminista, estão a falar destes assuntos.

Os números da violência doméstica que encontrou em Portugal chocaram-na?
São números muito fortes, é um fenómeno muito ‘espalhado’ por todas as faixas etárias.E também a parte psicológica chocou-nos muito – não se pode permitir. As mulheres com mais estudos, mais independentes, parecem sofrer um pouco menos com isso, mas ainda é muito premente também em todos os níveis de escolaridade.

O que é podemos fazer para mudar o rumo?

O caminho é sempre a educação, uma coisa que aliás o vosso Presidente focou no seu discurso no dia da apresentação do estudo. Ele disse que é uma questão cívica, eu considero que é mais grave – é um problema social. Temos de começar logo de início, nas escolas, a formar as crianças para a igualdade. Nas disciplinas podemos incluir capítulos sobre isto, mostrar que não há diferenças de maior entre um homem e uma mulher. E ajudará também os homens, porque há hoje uma parte da população masculina que não sabe como agir: viu os pais a fazer as coisas de uma forma e vê que a sua mulher, com os mesmos estudos que ele, o mesmo dinheiro, é diferente da sua mãe, então será que também ele deve ser diferente? Mas diferente como? É preciso orientá-los também.

A mulher até tem um nível de estudos superior aos homem na maioria dos casais, apesar de ganhar menos em 46% dos casos e apenas mais em 15%.
Sim, o estudo mostra isso e creio que os especialistas também têm de se ocupar dos homens, dos conflitos interiores deles. Quero insistir que o que vou dizer é apenas uma opinião: a culpa nem sempre é apenas dos homens porque foram educados para trazer o dinheiro para casa e para serem os fortes que defendem a mulher e os filhos. Ora, hoje em dia, muitas vezes deparam-se com uma companheira que não depende deles e eles podem sentir que perderam um pouco o seu domínio, domínio esse cuja origem é muito, muito antiga. E resta-lhes apenas o facto de serem fortes.

Lê-se no estudo que é preciso educar também as mulheres e não só os homens, mas depois não há um grande desenvolvimento deste assunto. O que é que o estudo quis dizer com isto?
A mulher tem de aprender a dizer não. Dizer assim: ‘Eu já trabalho fora de casa, eu já trago dinheiro para a nossa família, tu tens de fazer a metade do trabalho em casa, com os filhos e com os dependentes idosos’. Aprender a dizer ‘não’ é uma coisa difícil e por isso temos de ter armas. Alguém tem de começar a explicar às meninas, assim que sejam capazes de o entender, que desde o primeiro dia em que começam a viver com o companheiro têm de negociar: ‘Tu vais fazer isto, eu vou fazer aquilo’.

Da mesma forma que os rapazes observaram os pais, as mulheres também observaram as mães e vice-versa.

Sim, precisamente. E há um dado importantíssimo no estudo. Quando perguntámos às mulheres ‘qual é o teu ideal?’, elas respondem que o ideal seria que o homem fizesse metade do trabalho e elas outra metade. E quando perguntamos às jovens que ainda vivem em casa dos pais que não partilham a casa com ninguém como acham que vai ser a sua vida, elas assumem que vão fazer mais. Antes de isso ser uma realidade, já é algo que têm como adquirido. Não pode ser. É como se eu fosse entregar um currículo para uma empresa para a mesma posição que outros colegas homens e aceitasse que me paguem menos só para aceder ao emprego. Estamos a assumir a derrota antes de iniciar a luta.

Há uma espécie de medo de provocar rutura, desconforto, confrontos, quer no emprego, quer em casa.
Claro, mas este medo não existiria se as coisas fossem claras desde o primeiro dia, se se negociassem os termos de uma relação no que à divisão de tarefas diz respeito. Eu tenho duas filhas adolescentes e tento explicar-lhes isso. Digo-lhes sempre ‘se um dia vocês dividirem uma casa com alguém têm de falar os dois sobre quem vai tratar das faturas, quem vai fazer as compras a maioria das vezes segundo os vossos horários de trabalho e dá espaço para que se escolham as coisas que cada um gosta mais de fazer’.

A sua história pessoal também teve influência na realização do primeiro estudo em Espanha e, por inerência, no facto de agora lhe terem pedido para o realizar em Portugal. A própria Laura foi mandada parar pelo médico por dois anos. Estava exausta tal como a maioria das mulheres portuguesas?
Sim, fui obrigada a parar dois anos. A minha situação é muito pontual porque eu tinha sido consultora, tinha clientes em 20 países e viajava muito. Além disso não me posso queixar, sempre tive muita ajuda, remunerada. Nunca pensei ‘vou tirar tempo para ajudar a sociedade’. Não posso dizer isso, nunca tive um objetivo tão abrangente. Pensei antes ‘tenho dois anos e tenho duas filhas e tenho três irmãs e todas com filhas, como posso ajudá-las a entender melhor o seu futuro, a tomar melhores decisões nas suas vidas?’.

Outro dado difícil de entender: as mulheres com companheiro têm o mesmo ou menos tempo livre do que aquelas que não têm ninguém que as ajude em casa. Como é que isto é possível?
Esse dado é um horror, é uma vergonha. Fica pior porque dá mais trabalho ter uma casa de três do que de dois se tivermos de fazer tudo. Repare, até há mulheres que cuidam dos filhos dos seus companheiros com outras mulheres como se fossem seus, dispensando o mesmo tempo que aos seus e parecem esquecer-se de que existe um pai daquela criança.

Segundo o estudo, este desequilíbrio na divisão de tarefas só melhora daqui a cinco ou seis gerações. Este trabalho que coordenou não pode contribuir para uma mudança um pouco mais rápida?
Sim e isso é muito importante para mim. Espero eu, e espera a Fundação, que este estudo transforme este tempo em metade. Estes números só se verificarão se ninguém fizer nada. Adorava que fosse introduzida uma nova política de educação onde se pudessem incorporar temas sobre estas desigualdades nas várias disciplinas logo desde cedo. Sabe os cursos de preparação para o parto? Também deveriam existir para o matrimónio, mas sem serem aqueles que os padres já fazem. E também não são os cursos matrimoniais que faziam as nossas avós para aprender a coser meias, ser uma boa esposa. Não é isso. É para um casal ser justo um com o outro.

Fonte: expresso.pt

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