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Opinião

Sigo muitos grupos de Facebook na terrinha. Gosto porque entendo os tempos e movimentos desta nova vaga migratória avassaladora da qual faço parte (leia-se, brasileiros desesperados fugindo do caos brasileiro) e porque gosto de contribuir com o que aprendi aqui.

Quebrei a cara uma dezena de vezes, pelo menos, e gosto de pensar que, com minha contribuição, menos gente quebrará a cara como eu.

Um tema em especial pula na minha timeline diversas vezes por dia. Se os candidatos a imigrantes o pesquisassem na lupa de seus grupos prediletos, garanto: planejariam melhor sua mudança para Portugal em dois palitinhos. Ou em dois cliques.

Esse tema é emprego. “Tem emprego em Portugal?” “Tem emprego em Braga?” (agora todos resolveram se mudar para Braga). “É fácil arrumar emprego aí?”” Consigo sustentar uma família de x pessoas trabalhando em Portugal?” “Consigo trabalho na minha área?”

Quando o governo português foi à imprensa divulgando programas de incentivo à imigração há alguns anos, a intenção era cristalina: 1) O país queria aposentados – gente com rendimentos próprios para injetar dinheiro na economia portuguesa. 2) Portugal (e toda a Europa) precisava de mão-de-obra indiferenciada – pessoas que pudessem fazer aquele trabalhinho, digamos, chato, que o português via de regra não demonstra, assim, muito interesse. Telemarketing, obra, colheita, restauração e por aí vai.

Quanto aos aposentados, esses vieram aos bandos e continuam pipocando por aqui através do visto D7. Mesmo com o câmbio a provocar infartos de hora em hora, esse público segue, uns com os rendimentos mais minguados, outros se segurando melhor, e bastante gente pensando em empreender ou em investir em imóveis.

Quanto à mão-de-obra indiferenciada, temos um elemento novo nesse cenário, que é a explosão das rendas (os aluguéis por aqui). Até há bem pouco tempo, uma pessoa que ganhasse 650 euros conseguia morar por 250 euros. Hoje essa mesma pessoa ganha 650 euros e mora por 1000 euros. Se o salário médio do português hoje (cerca de 850 euros de acordo com pesquisas recentes) não paga o aluguel, imagine o do imigrante. Tenso.

Mas tem um outro detalhe nessa realidade. O mercado de trabalho aqui em Portugal é um remédio amargo – e muitas vezes inócuo – para pessoas de estômago forte. Ele oferece poucas opções e um dos salários mais baixos dentre os praticados na Europa para uma população de alta formação, falante de pelo menos três idiomas. Não sem motivo mais de 2 milhões de portugueses estão expatriados em países da União Européia – número das Nações Unidas – atrás de melhores condições de vida. Dois milhões, em um país de pouco mais de 10 milhões de habitantes, é bom ressaltar.

E interessante que, mesmo Portugal no auge da imigração, quando parece que todo o planeta resolveu desembarcar por aqui, seja fugindo de crises políticas, de terrorismo ou de baixa qualidade de vida de outros países, a população do país, ainda assim, está a decrescer, com sua juventude a sair em massa atrás de um futuro melhor.

Mas não é para menos. Embora o assunto seja sério, os anúncios de emprego aqui são fonte inesgotável e garantida de diversão. Eles são mais ou menos assim:

“Pessoa dinâmica e com ótimas habilidades interpessoais, resiliente e com forte aptidão para uma careira de desafios, formação em marketing digital e especialização em física quântica e biologia marinha, com pelo menos 5 anos de experiência no tratamento de tartarugas de cativeiro, falante de inglês, alemão, mandarim, italiano, espanhol – ídiche será um diferencial – para início imediato. Salário de 600 euros, uma folga semanal.”

Bom, claro que essa vaga é a do português, não a do imigrante. Essa é a vaga boa, acredite!

Finalmente respondendo às perguntas de tantos membros de diversos grupos sobre Portugal, se há emprego em Portugal. Há, claro. Mas dificilmente terá emprego na sua área (salvo se você for de TI) ou na sua carreira executiva com bom salário. Você dificilmente ganhará num emprego aqui o que ganhava no Brasil e dificilmente terá o statusprofissional que gozava antes.

O que de verdade existe nessas bandas é trabalho na obra, no restaurante, no quiosque do shopping sem colega para revezar e sem poder ir à casa de banho, emprego no hotel em pé por 12 horas diárias, de sol a sol com uma folga semanal e salário mínimo. E ao final da jornada voltar para casa numa periferia bem distante dos cenários instagramáveis que você sonhou ao deixar o Brasil.

E existe uma outra pergunta, até mais importante, que geralmente não é feita: com o salário médio do imigrante, consigo me manter no longo prazo em Portugal?

As pessoas precisam estar cientes desta realidade antes de virem para cá. Para isso existem os grupos e a internet como ferramentas de pesquisa. Porque mudar de continente demanda muita investigação, planejamento e extrema responsabilidade, especialmente quando envolve crianças.

Portugal é um país divino, um lugar para ser feliz. Um lugar para se usufruir o que se conquistou durante a vida, um lugar para se jogar em um empreendimento novo, para abrir seu café, seu hostel, sua tasca, começar uma consultoria, aprimorar seus estudos, colocar os filhos na escola pública e vê-los se misturar com toda a gente, indo a pé para a escola e também um lugar para se divertir.

Por isso digo sempre para as pessoas, que venham pelos motivos certos. Há época para tudo e seu momento vai chegar. E quando puder, venha!  Mesmo! Aqui é, de fato, incrível!!!

*A Opinião é da Fernanda Geribello

Junho de 2018

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